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Por: SOUZA, J. F. G. ¹; OLIVEIRA, J. N. ²; GOBBO, F. S. A. ³; PATRICIO, G.C.F.4

USO DA MORFINA VERSUS METADONA NO PÓS OPERATÓRIO IMEDIATO EM PEQUENOS ANIMAIS

USE OF  MORPHINE VERSUS METHAFONE IN THE IMMEDIATE POSTOPERATIVE PERIOD  IN SMALL ANIMALS.

PALAVRA – CHAVE: Metadona, Morfina, Cão.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Os opioides vêm sendo utilizados na medicina veterinária pelos seus efeitos hipnoanalgésicos e sedativos. Esses fármacos são importantes no controle da dor traumática ou cirúrgica, inflamatória e oncológica. Cerca de 75% dos pacientes portadores de neoplasias em estágio avançado apresentam dor (SPINOSA et al., 2011; GAROFALO., 2010 e FLÔR., 2006).

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Os procedimentos cirúrgicos causam dores que podem variar na escala de acordo com o tipo de interversão. A mastectomia parcial ou total, procedimento rotineiro na medicina veterinária normalmente apresenta dor de moderada a intensa (PEREIRA., 2013).

Os opioides são fármacos que causam maior analgesia quando comparado com alguns anti-inflamatórios não esteroidais (AINE). Além disso, apresentam a vantagem do uso em animais neonatos, nefropatas e hepatopatas, considerando que nesses, as doses devem ser reajustadas, e em animais idosos o ideal é reduzir a dose entre 40% a 60%. Sabe-se também que o uso dos opioides na medicação pré-anestésica (MPA) diminui o uso dos anestésicos inalatórios ou injetáveis em até 40% (ALEIXO E TUDURY., 2005 e GUTIERRIZ., 2012).

Os opioides são divididos em cinco grupos:

1.Os alcaloides de ópio, este em dois subgrupos, os derivados fenantrênicos e os derivados benzilisoquinolínicos.

2.Os compostos semissintéticos.

3.Os compostos sintéticos.

4.Os antagonistas dos narcóticos.

5.Os compostos de ação mista (agonista-antagonista).

Assim são fármacos de escolha para o controle da dor, apresentam longa duração, na grande maioria e há uma menor necessidade de reaplicação na dor aguda (PEREIRA., 2010).

Os opioides atuam na maioria das células nervosas inibindo na fenda pré-sináptica a liberação dos neutrotransmissores e a atividade da adenilciclase (SPINOSA et al., 2011). A morfina e a metadona são opioides com ligação nos receptores mu (μ), responsável em causar analgesia, sedação supraespinhal, depressão respiratória, agitação e/ou dependência física (MANFINADE. et al., 2009). A morfina quando usada em doses elevadas possui seletividades para outros receptores, pode este ser delta, kappa, épsilon e sigma (GUTIERRIZ., 2012). A metadona (6-dimetilamina-4,4-difenil-3-3-heptanona) é um opioide sintético e o principal efeito desejado pela metadona é causar analgesia ou/e sedação, podendo ocasionar depressão respiratória e isto está relacionado à seletividade principalmente na junção aos receptores mu (μ) (CAMPAGNOL., 2011). Além dos receptores citados, a metadona tem ação antagonista nos receptores NMDA (N-metil D-aspartato), localizado na região espinhal promovendo uma ampla analgesia e ação na dor crônica e neuropática, diminuído a necessidade de reaplicação. Outro mecanismo de ação é a atividade monoaminérgica que inibe a recaptação de noradrenalina e serotonina (PADILHA. et al., 2015.; PEREIRA., 2013.; CARDOZO., 2013). A metadona é um opioide sintético composto por dois enantiômeros racêmicos a S-metadona ou isômero d ou R-metadona ou isômero l, sendo este último responsável pela maior parte da ação analgésica. A metadona é de redistribuição rápida, em relação à morfina, devido sua característica lipossolúvel. Sua metabolização é principalmente via hepática com formação de metabólitos inativos (FANTONI., 2012.; PEREIRA., 2013).

Os efeitos indesejáveis apresentados pela metadona incluem depressão cardiorrespiratória dose-dependente superior a morfina, alteração em débito cardíaco, na resistência vascular sistêmica, pela liberação de vasopressina, excitação e disforia em doses elevadas (FANTONI., 2012.; PEREIRA., 2013).

O autor Pereira (2013) utilizou dose intramuscular (IM) de 0,5 mg/kg, e Fantoni (2012) cita dose de até 1 mg em cães, porém nessa última com exacerbados efeitos cardiorrespiratórios e excitação, principalmente por via endovenosa (IV), preconizando doses de até 0,5 mg/kg, IM ou IV. Fantoni (2012) cita também o uso por via subcutânea (SC) na dose de 0,2 mg/kg em gatos. Já Manfrinate, et. al., (2009) utiliza em seu experimento dose de 0,2 mg/kg IM em gatos, com bons efeitos analgésicos e sem efeitos colaterais. Gaynor e Muir III (2009) cita dose de 0,5 a 1 mg/kg para cães e 0,1 a 0,5 mg/kg para gatos, sendo este o menos propenso a causar náusea ou êmese, além de ter ação analgésica em receptores NMDA e diminuir a tolerância a opioides. A via epidural (EP) também é uma possibilidade, sendo 0,3 mg/kg utilizado por Pereira (2013) e Fantoni (2012), porém é citado pelos dois que a metadona por via epidural não apresentou diferença no efeito analgésico em relação a administração por via endovenosa. A administração por via parenteral promove analgesia com duração de 2 a 6 horas (GAYNOR E MUIR III., 2009.; PEREIRA., 2013) e por via epidural de 8 a 12 horas (PEREIRA., 2013).

A morfina é o principal representante dos opioides, sendo o protótipo dos efeitos analgésicos a qual todos os opioides são comparados (GAYNOR E MUIR III., 2009.; PEREIRA., 2013).  A metabolização da morfina ocorre pela ligação com o ácido glucurônico formando dois metabólitos a morfina-6-glucuronida que tem afinidade por receptores opióides, gerando assim analgesia, e a morfina-3-glucuronida com pouca afinidade por receptores opióides, sendo responsável pelos efeitos de excitação. Esses metabólitos são eliminados por filtração glomerular e uma pequena porcentagem da morfina é eliminada de forma inalterada pela urina. Baixas concentrações são observadas no plasma em cerca de uma a duas horas devido à rápida eliminação da morfina e seus efeitos analgésicos podem perdurar por cerca de 4 horas devido à lenta eliminação no liquor cefalorraquidiano (PEREIRA., 2013). Os principais efeitos da morfina é analgesia sem perda de propriocepção ou sensações táteis, com leve sedação e depressão do centro da tosse. Seus efeitos colaterais como a bradicardia geralmente sem alteração na contratilidade do miocárdio, depressão respiratória, êmese, estimulação de quimiorreceptores da peristalse intestinal podendo levar a defecação logo após a administração do fármaco e constipação tardia pelo estimulo dos esfíncteres gastrointestinais, aumento da produção do hormônio antidiurético (ADH) com retenção urinaria de até 90%, liberação de histamina principalmente por via endovenosa com consequente vasodilatação e hipotensão. Pode ocorrer também excitação e disforia, sendo o cão menos susceptível (GAYNOR E MUIR III., 2009.; PEREIRA., 2013.; MANFRINATE., et. al., 2009). Em gatos a morfina tem menor efetividade devido à dificuldade de produção UDP-glucuroninosiltransferase enzima essa que ao se conjugar com a morfina forma metabolitos ativos (FANTONI., 2012.; GAYNOR E MUIR III., 2009), segundo Gaynor e Muir III (2009) gatos não produzem metabolitos ativos de morfina por via intramuscular e só 50% deles produzem por via IV.

As vias de administração para morfina são subcutânea (SC) e IM na dose de 0,5 a 1 mg/kg com latência de cerca de 30 min e duração de 3 a 5 horas de analgesia (PEREIRA., 2013). ). Gaynor e Muir III., (2009) apresenta dose de até 2 mg/kg para cães e de 0,2 a 0,5 mg/kg para gatos, com duração de até quatro horas, sendo que a morfina apresenta baixa biodisponibilidade por via oral, sendo necessário doses de 2 a 5mg/kg. O uso IV é possível, porém deve ser cauteloso e de administração lenta devido a liberação de histamina e demais efeitos indesejáveis (GAYNOR E MUIR III., 2009.; FANTONI., 2012.; PEREIRA., 2013). Fantoni (2012); cita doses de até 0,5 mg/kg diluído em 5 mL de solução de NaCl a 0,9% administrando 1 mL/min, sem apresentar efeitos colaterais importantes ou liberação de histamina, podendo acarretar excitação, principalmente em animais sem dor. A morfina também pode ser administrada por via epidural (EP) com latência de 20 a 60 min e duração de 12 a 24 horas, com dose de 0,1 a 0,2 mg/kg e com menos efeitos colaterais (GAYNOR E MUIR III., 2009.; FANTONI., 2012.; PEREIRA., 2013).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A metadona e a morfina seja ela associada ou não a outro agentes analgésicos, ambas possuem ótimos efeitos desejados quando comparado a controle da dor, tanto por via intramuscular ou endovenosa. Nos estudos citados, as doses para ambas não modificaram tanto, exceto pelo autor Fantoni (2012), que indica usar dose mais baixa da metadona por via epidural. Dentro os efeitos colaterais, o mais digno de nota da metadona é a bradicardia significativa, dependendo do estado clínico do paciente ou idade pode causar repercussão hemodinâmica, sendo importante a monitoração. A literatura indicou à metadona principalmente para dores crônicas e neuropáticas. E morfina é citada com o efeito colateral mais relevante o vômito, por isso os autores pouco citam seu uso na medicação pré-anestésica, além da sua liberação de histamina quando administrada por via IV, levando a vasodilatação e hipotensão. No pós-operatório, para controle da dor imediato a morfina tem a vantagem de reajuste de aplicação e seus efeitos colaterais tende a diminuiu a partir da segunda dose, onde o mesmo não foi observado na reaplicação da metadona. A morfina por sua vez tem efeito sedativo maior quando comparado a metadona, e que esta última possui seus efeitos analgésicos para melhor controle de dor seja ela crônica ou não e principalmente em animais que foram submetidos algum tipo de trauma.

REFERÊNCIA

ALEIXO, G. A. S.; TUDURY. E. A.; Utilização de opióides na analgesia de cães e gatos. Veterinária Notícias, Umberlância, v. 11, n. 2, p. 31-32, 2005.

MANFRINATE, R.; DAHROUG. M. A. A.; FARIAS. D. C.; VASCONCELOS. L. P. S.; WAYHS. N. N. S.; MONZEM. S.; SILVA. E. C.; GALCERAN. J. V. A.; BOGORNI. F.; SOUZA. R. L.; GUIMARÃES. L. D.; Efeitos da morfina e da metadona associadas à acepromazina em gatas anestesiadas com propofol e halotano e submetidas à ovariossalpingohisterectomia. Acta Scientiae Veterinariae. V. 838,  p. 246, 2009.

PATILHA, V. S.; TOCHETO. R.; BEIER. S. L.; VOLPATO. J.; OLESKOVICZ. N.  Avaliação da analgesia pós-operatória da metadona, da cetamina ou da sua associação em gatas submetidas a ovariossalpinho-histerectomia. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec, Belo Horizonte, v. 67, n. 2, p. 373, 2015.

FANTONI. D. T.; Tratamento da Dor na Clínica de Pequenos Animais, Rio de Janeiro: Centro, 2012. p. 116, 117, 118, 123, 124 e 125.

GAYNOR. J. S.; MUIR III. W. W.; Controle da Dor em Medicina Veterinária, São Paulo: Vila Rica, 2009. p. 164 à 168.

OTERO, P. E.; Dor, Avaliação e Tratamento em Pequenos Animais, São Paulo: São Caetano do Sul, 2005. p. 99 à 100.

SPINOSA. H. S.; GÓRNIAK. S. L.; BERNARDI. M. M.; Farmacologia Aplicada à Medicina Veterinária, Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2011. p. 170 à 172.

CAMPAGMOL, D. Farmacologia clínica da metadona peridural e intravenosa em cães. 2011. 182 f. Tese (Título de Doutor em Anestesiologia) – Faculdade de Medicina da Unesp, Campus de Botucatu, SP.

CARDOZO, L. B. Avaliação da eficácia analgésica e resposta inflamatória em cães tratados com metadona e tramadol e submetidos a osteotomias  corretivas. 2013. 72 f. Tese (Título de Doutor em Ciências) – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, SP.

FLÔR, P. B. Avaliação da eficácia e segurança do emprego do tramadol para analgesia em cães portadores de dor oncológico. 2006. 88 f. Dissertação (Título de Mestre em Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, SP.

GAROFALO, N. A. Alterações hemodinâmicas  e neuroendócrinas associadas ao uso da metadona  em cães consciente e anestesiados com isoflurano. 2010. 110 f. Dissertação (Título de Mestre em Anestesiologia) – Faculdade de Medicina da Unesp, Campus de Botucatu, SP.

GUTIERREZ. V. P. Efeito antinociceptivo  da crotalfina sobre a dor óssea induzida pelo tumor de Walker 256 em fêmur de ratos. 2012. 29 f. Tese (Título de Doutor em Ciências) – Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, SP.

PEREIRA. D. A. Efeitos cardiorrespiratórios e perfil analgésico da metadona, pela via intramuscular e intravenosa, em cadelas submetidas à ovariossalpingohisterectomia. 2010. 127 f. Tese (Título de Doutor em Cirurgia Veterinária) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária da Unesp, Campus de Jaboticabal, SP.

PEREIRA. V. G. Efeito analgésico da metadona e morfina intramuscular ou epidural, associada ou não à lidocaína, em cadelas submetida à mastectomia. 2013. 61 f. Dissertação (Título de Magister Scientiae) – Universidade Federal de Viçosa, MG.

1 FAC; juliana_g_souza@hotmail.com
2 FAC; juliano_arena@hotmail.com
3 Centro Veterinário Cambuí; fabiana@cvcamb

 

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Juliana F. Garcia

Graduada em Medicina Veterinária pela faculdade Anhanguera Educacional - 2016. Médica-veterinária atua no setor de Intensivismo do Hospital Veterinário Taquaral, 2018. É responsável pela gestão do setor de internação e intensivismo no Hospital Veterinário Taquaral, 2020. Especializando em Cardiologia Veterinária pela Associação Nacional de Clínicos Veterinário de Pequenos Animais - (Anclivepa SP) - 2020

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